DÍLI, 16 de abril de 2021 (TATOLI) – A família da primeira vítima mortal de covid-19, Francisca Gama, de 44 anos, que sofria de insuficiência renal, encontrou-se hoje com a equipa da Sala de Situação do Centro Integrado de Gestão de Crise (CICG) e apresentou as suas recomendações e perspetivas relativamente ao processo fúnebre.
Francisco Ximenes, o representante da família, lamentou a maneira como o funeral de Francisca foi conduzido pela equipa do CIGC, embora aceite a decisão do Governo e as regras da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde (MS).
O sentimento da família é de tristeza pela impossibilidade de seguir a cultura timorense e a religião católica durante o processo fúnebre. Não foi possível colocar os tais no caixão, porque o CIGC já o tinha selado. Não existe cruz na sepultura para simbolizar Francisca, pois não foi providenciada. A família participou na cerimónia, mas não pôde colocar velas e flores.
“Além disso, de acordo com a nossa cultura, o filho mais velho da falecida deve prestar uma última homenagem, o que não aconteceu, devido ao protocolo do Ministério da Saúde”, contou Francisco Ximenes com cara de tristeza, após o encontro, no Centro de Convenções de Díli.
A família recomendou ao CIGC que coloque uma cerca de proteção no cemitério designado para enterrar doentes de covid-19 em Metinaro de forma a impedir os animais de pisarem a sepultura, porque o local tem muitos eucaliptos.
As recomendações da família surgiram ligadas à ação liderada por Kay Rala Xanana Gusmão e a família da segunda vítima mortal de covid-19, Armindo Borges, para realizar o funeral de acordo com a cerimónia tradicional no cemitério de Kamalhout, no Suco de Manleuana. Esta ação decorreu durante os últimos quatro dias no centro de isolamento de Vera Cruz.
A sala de situação recebeu as sugestões da família para colocar uma cruz e flores na sepultura no cemitério de Metinaro a 20 de abril. Depois de três três ou cinco anos, a família irá levar os restos mortais da vítima para enterrar na sua terra natal e efetuará a cerimónia cultural.
Francisco Ximenes declarou que as lamentações da família não são um ato de protesto contra o Governo e cumprirá o protocolo da OMS e do MS.
“Não pretendemos protestar contra o nosso Governo. Agradecemos à equipa da Sala de Situação e ao Ministério da Saúde. Apesar das lacunas com a primeira experiência de morte por covid-19, consideramos que os profissionais estão prontos para prestar um trabalho adequado e salvar a vida de toda a população timorense. Esperamos que estas sejam as duas únicas mortes. Caso haja mais óbitos, o tratamento não pode ser igual ao de Francisca Gama, deve ser mais digno, porque temos a nossa cultura e religião”, concluiu.
Já o Coordenador da Força Tarefa para a Prevenção e Mitigação do Surto de Covid-19 em Timor-Leste do Centro Integrado de Gestão de Crise (CIGC), Rui de Araújo, louvou a disponibilidade da família de Francisca Gama para se encontrar hoje no sentido de abordar a questão do processo fúnebre realizado há dez dias.
“Apresentamos as nossas desculpas, como já o fez o Primeiro-Ministro ontem. Compreendemos as lamentações da família. As questões apresentadas hoje relativamente aos aspetos culturais já estão contempladas nos procedimentos a realizar”, afirmou.
Rui Araújo espera que, no futuro, não aconteçam mais óbitos. Caso se registem mais mortes, o CIGC não vai repetir as lacunas em relação à cultura existente.
Recorde-se que Timor-Leste registou a 06 de abril a primeira morte causada pelo novo coronavírus. Francisca Gama foi diagnosticada com covid-19 a 24 de março e a equipa de saúde transportou-a para o centro de isolamento de Tasi Tolu.
Começou por ter sintomas a 04 de abril e foi transferida para o isolamento de Vera Cruz, mas, com as cheias que ocorreram na data em causa, foi mudada para o Hospital de Lahane, onde veio a falecer.
Jornalista: Maria Auxiliadora
Editor: Zezito Silva




