Crianças e adolescentes lusófonos enfrentam tráfico, violência e exploração nas rotas para Europa

DÍLI, 8 de outubro de 2026 (TATOLI) — Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde integram as rotas migratórias utilizadas por crianças, adolescentes e famílias que procuram chegar à Europa, numa trajetória marcada pela atuação de redes de tráfico de pessoas, violência e exploração.
A informação consta de uma análise divulgada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que alerta para os riscos enfrentados por menores ao longo das principais rotas migratórias.
Segundo o relatório, mais de 20 mil crianças e adolescentes chegaram à Europa no ano passado através de rotas migratórias sem a companhia dos seus responsáveis.
Países lusófonos nas rotas para as Canárias
Na África Ocidental, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde são identificados como países ligados à rota do Atlântico Africano Ocidental, utilizada por jovens e famílias na tentativa de alcançar as Ilhas Canárias, território espanhol.
De acordo com a análise, estas rotas são exploradas por redes de tráfico de pessoas e grupos de crime organizado, aumentando a exposição de crianças e adolescentes a situações de violência, exploração e abuso.
O documento identifica também Moçambique e Guiné Equatorial como países onde se registam fluxos migratórios e pedidos de proteção internacional.
Embora com características distintas, estes movimentos fazem parte de um contexto migratório mais amplo em que crianças e jovens podem ficar expostos a diferentes formas de violência durante o percurso.
Brasil surge como destino de programas de retorno
O Brasil é igualmente mencionado na análise, mas num contexto diferente. O país surge como um dos principais destinos dos programas de Retorno Voluntário Assistido e Reintegração, destinados a menores e jovens que deixam a Europa depois de terem os seus pedidos de proteção internacional indeferidos.
Os programas procuram apoiar o regresso e a reintegração dos jovens nos países de destino, num processo que envolve diferentes entidades e organizações.
Itália e Espanha concentram grande número de menores desacompanhados
A situação nas fronteiras europeias continua a preocupar as agências das Nações Unidas. Itália e Espanha registaram as maiores proporções de chegadas de menores desacompanhados, com 86% das crianças e adolescentes a chegarem sem qualquer acompanhante.
Na Bulgária, Chipre, Grécia, Itália, Malta e Espanha, o número de chegadas de crianças por via terrestre e marítima diminuiu 25% em relação a 2024.
A tendência, contudo, não foi uniforme. Em Itália, as chegadas aumentaram 12%, ultrapassando 14 mil crianças e adolescentes. Entre os principais países de origem estavam o Egipto, Eritreia, Somália, Bangladesh e Etiópia.
Quase metade relata violência física durante a viagem
O relatório baseia-se também em entrevistas a mais de 4.500 jovens. Destes, 47% afirmaram ter sofrido violência física durante a viagem.
Na rota do Mediterrâneo Central, 28% disseram ter sido detidos arbitrariamente ou mantidos em cativeiro contra a sua vontade, enquanto 17% relataram ter sido submetidos a trabalhos forçados.
A Líbia é apontada como o principal local de ocorrência de abusos e violações dos direitos humanos registados ao longo desta rota.
Perante os riscos identificados, a OIM, o ACNUR e a UNICEF apelam à União Europeia para que coloque a proteção das crianças e dos adolescentes no centro das suas políticas migratórias.
Entre as medidas defendidas pelas três organizações estão o acesso a assistência jurídica, a proibição da detenção de menores por razões relacionadas com a migração e a criação de vias seguras de recolocação.
A Diretora-Geral da OIM, Amy Pope, defendeu ainda o reforço da cooperação entre os países europeus e os países de origem e trânsito, com o objetivo de proteger os menores desacompanhados e combater as redes de tráfico de pessoas.
Equipa da Tatoli

