ONU: Calor extremo ameaça cada vez mais grávidas e recém-nascidos

DÍLI, 6 de outubro de 2026 (TATOLI) — A gravidez e o parto estão a tornar-se uma nova “linha da frente” da crise climática, à medida que o aumento das temperaturas é associado a riscos crescentes para a saúde das grávidas, dos fetos e dos recém-nascidos, alertou o Secretário-Executivo da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Alterações Climáticas, Simon Stiell.
Durante uma reunião ministerial preparatória da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31), que decorreu nas Fiji, o responsável afirmou que a exposição ao calor extremo está cada vez mais relacionada com partos prematuros, nados-mortos, baixo peso à nascença e complicações maternas.
Profissionais de saúde registam aumento dos riscos
Segundo Simon Stiell, “o quadro é claro e muito preocupante”, citando dados recentes de um inquérito realizado junto de profissionais de saúde materna na Austrália, no Brasil, na Índia, no Reino Unido e no Zimbabué.
Três em cada quatro dos profissionais inquiridos afirmaram ter observado um aumento dos casos ou complicações relacionadas com o calor nos últimos cinco anos e cerca de 81% manifestaram preocupação com o impacto crescente das temperaturas elevadas na saúde das mães, dos fetos e dos recém-nascidos.
Quase todos os profissionais consultados disseram ainda já ter tratado uma grávida ou um bebé cuja saúde consideraram ter sido afetada pelo calor.
Calor aumenta ansiedade durante a gravidez
Para Simon Stiell, por detrás destes números encontram-se situações concretas enfrentadas diariamente por grávidas e profissionais de saúde.
O responsável referiu, entre outros exemplos, grávidas que enfrentam dificuldades para chegar às unidades de saúde devido ao calor extremo, parteiras obrigadas a trabalhar em condições de temperaturas elevadas e recém-nascidos que necessitam de cuidados especializados em ambientes sem condições adequadas.
“Para milhões de pessoas, a gravidez está a tornar-se um período de ansiedade”, afirmou, salientando que as alterações climáticas estão a introduzir novos riscos numa fase particularmente vulnerável da vida.
O responsável sublinhou que ninguém está completamente protegido das ondas de calor, mas os seus impactos não são distribuídos de forma igual.
Alterações climáticas podem agravar desigualdades
As condições sociais e económicas desempenham um papel importante na exposição ao calor extremo. Trabalhar ao ar livre, viver em habitações sem proteção adequada contra temperaturas elevadas, percorrer longas distâncias para chegar a uma unidade de saúde ou depender de centros de saúde sem água, eletricidade ou sistemas de refrigeração são fatores que podem aumentar os riscos.
“Manter a calma simplesmente não é uma opção quando não há nenhum lugar fresco para onde ir”, salientou Simon Stiell.
O responsável da ONU observou que a segurança durante a gravidez e o parto depende, demasiadas vezes, do local onde a mulher vive, do seu rendimento e do acesso aos serviços de saúde.
Sem medidas adicionais de adaptação, alertou, o aumento das temperaturas poderá aprofundar estas desigualdades.
ONU pede inclusão da saúde materna nos planos climáticos
Simon Stiell apelou aos países para que integrassem explicitamente os cuidados durante a gravidez e a assistência aos recém-nascidos nos planos nacionais de adaptação às alterações climáticas e nas estratégias de resposta ao calor extremo.
Segundo o Secretário-Executivo, aquilo que não é contemplado nos planos corre o risco de ficar sem financiamento, avaliação e medidas específicas de proteção.
O Acordo de Paris estabelece que a adaptação às alterações climáticas deve incorporar uma dimensão de género. Para Simon Stiell, isso significa incluir a saúde materna e neonatal nos planos nacionais de adaptação e nos planos de ação destinados a enfrentar o calor extremo.
O dirigente destacou também o Plano de Ação de Género de Belém, acordado durante a COP30, realizada no Brasil em 2025. A iniciativa procura reforçar a integração das questões de género na ação climática, nomeadamente ao nível dos dados, do financiamento e da participação.
Para o responsável, o aumento da exposição ao calor extremo demonstra a necessidade urgente de garantir que a proteção das grávidas, dos fetos e dos recém-nascidos seja integrada nas políticas de adaptação às alterações climáticas.
A inclusão destas populações vulneráveis nas estratégias climáticas, defendeu, será essencial para reduzir os riscos para a saúde e evitar que a crise climática agrave ainda mais as desigualdades existentes.
Equipa da Tatoli

