Autor: Dionísio Babo Soares, Ph.D
A adesão formal de Timor-Leste à Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que se concretizou a 26 de outubro, representa um momento de profunda significância histórica e estratégica. Mais do que um simples alargamento para onze membros, este ato simboliza a materialização do paradoxo central que define a própria ASEAN: uma organização que aspira à centralidade regional, mas que é constantemente desafiada pela diversidade e pelas tensões internas e externas que a circundam.
Ao integrar o Estado mais jovem e um dos mais frágeis do Sudeste Asiático, a ASEAN consagra o ideal de uma “comunidade imaginada” — mas também se confronta com o seu teste mais exigente: o de transformar o simbolismo político em integração efetiva.
A Construção da Centralidade: Do “ASEAN Way” à Comunidade Alargada
A ASEAN nasceu em 1967, num contexto marcado pela Guerra Fria e pelo processo de descolonização, como um pacto de estabilidade entre Estados ansiosos por preservar a soberania e limitar a influência das potências externas. O seu modelo — o chamado ASEAN Way — baseia-se em três pilares fundamentais: a não-ingerência, a resolução pacífica de litígios e a tomada de decisão por consenso.
Este método, assente na diplomacia discreta e na confiança mútua, permitiu que a ASEAN evoluísse de uma aliança de conveniência para um eixo central da diplomacia regional. Fóruns como o ASEAN Regional Forum (ARF) e a Cimeira da Ásia Oriental (EAS) consolidaram o seu papel como plataforma de diálogo entre potências rivais — dos Estados Unidos à China, passando pela Índia e pela Austrália.
A adesão de Timor-Leste, nesse sentido, representa o culminar lógico desta trajetória: a ASEAN completa, finalmente, o seu mapa político e reivindica a sua legitimidade como representante plena do Sudeste Asiático. É, ao mesmo tempo, o auge e o limite da sua centralidade institucional.
O Preço da Centralidade: Fragilidades Expostas e o Desafio da Integração
A história da ASEAN é, porém, também a história das limitações impostas pelo seu próprio modelo. O consenso, outrora alicerce da coesão regional, degenerou numa espécie de acinesia estratégica, comprometendo a capacidade de resposta da organização.
É neste contexto que a integração de Timor-Leste expõe de forma aguda o paradoxo da ASEAN. O bloco celebra a sua unidade alargada, mas enfrenta o desafio de incorporar um membro com instituições frágeis, uma economia altamente dependente do petróleo e capacidades administrativas ainda em consolidação. A periferia interna da ASEAN torna-se, assim, mais visível — e o sucesso desta integração dependerá menos da cerimónia de adesão do que da capacidade de sustentar, de forma coordenada, o reforço institucional e económico de Díli.
O “ASEAN Way” será, inevitavelmente, posto à prova: conseguirá a organização converter a retórica da comunidade em mecanismos concretos de apoio e coesão social?
A Geopolítica da Adesão: Timor-Leste no Tabuleiro Regional
A integração de Timor-Leste não ocorre num vácuo. O Sudeste Asiático é hoje um epicentro de competição entre grandes potências. A China tem aprofundado a sua influência através de projetos de infraestruturas e do enquadramento económico; os Estados Unidos da América mantêm uma presença estratégica e uma rede de alianças bilaterais; e a União Europeia continua a ser um parceiro relevante, embora a sua ênfase na governação e nos direitos humanos nem sempre se alinhe com o princípio de não-ingerência da ASEAN.
Neste contexto, Timor-Leste surge como um ator pequeno, mas estrategicamente posicionado. A sua política de “amizade com todos”, combinada com fortes laços com parceiros diversos — de Pequim a Canberra e Bruxelas —, confere-lhe uma flexibilidade rara, mas também um desafio adicional para o bloco.
A ASEAN será testada na sua capacidade de funcionar como um fórum onde Timor-Leste possa afirmar os seus interesses sem ser compelido a escolher entre blocos rivais. A manutenção deste equilíbrio delicado será essencial para preservar a credibilidade da organização enquanto “gestora de equilíbrios” na arquitetura regional.
Para Além do Paradoxo – A Reinvenção da Centralidade ASEAN
A adesão de Timor-Leste é um marco histórico e um ponto de inflexão. Com ela, a ASEAN conclui o seu projeto de abrangência geopolítica, mas abre um novo capítulo — um que exige mais do que centralidade nominal.
O futuro da sua relevância dependerá da capacidade de reinventar o “ASEAN Way” sem o abandonar, equilibrando soberania com eficácia implica:
• Transformar a diversidade em força, promovendo uma integração económica que vá além da retórica e que reduza as assimetrias entre os membros;
• Reformar gradualmente os mecanismos de decisão, permitindo maior flexibilidade em matérias técnicas e de desenvolvimento;
• Reforçar o secretariado e os instrumentos de execução, conferindo maior capacidade institucional ao bloco;
• Afirmar uma voz coletiva coerente, capaz de resistir à fragmentação geopolítica e de preservar a autonomia estratégica da região.
Ao acolher Timor-Leste, a ASEAN reafirma a sua visão de uma comunidade regional coesa, mas também se confronta com a urgência da sua própria renovação.
A partir de 26 de outubro de 2025, o Sudeste Asiático estará formalmente unido. O verdadeiro desafio começa agora: transformar essa união formal numa comunidade que fale — e aja — com uma só voz. Momento de verdade: a ASEAN será agora refletida pela sua capacidade de transformar a retórica da “comunidade” em mecanismos tangíveis de integração e solidariedademútuos.
O autor escreve a título pessoal. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente posições oficiais




