DÍLI, 23 de outubro de 2023 (TATOLI) – Em abril passado o Governo aprovou uma proposta que definia o português como língua de instrução e ensino em todo o sistema educativo. O articulado procedia à definição da “língua portuguesa como língua de instrução e ensino do sistema educativo timorense, com a língua tétum e demais línguas nacionais a assumirem um papel de apoio”. A proposta, então apresentada pelos Ministérios do Ensino Superior, Ciência e Cultura (MESCC) e Educação, Juventude e Desporto, abarcaria, portanto, todo o sistema escolar.
Armindo Maia, em declarações no Centro Cultural Português, na Embaixada de Portugal, em Díli e à margem de uma cerimónia de boas-vindas a um grupo de professores para os Centros de Aprendizagem e Formação Escolar a 28 de fevereiro, havia declarado que os dois Ministérios iriam a propor alterações à Lei de Bases da Educação, e a proposta era que a língua de instrução fosse apenas o português. O tétum e outras línguas nacionais serviriam de línguas auxiliares e de apoio pedagógico quando fossem necessárias”.
A 30 de setembro, José Honório da Costa, titular do MESCC, afirmou, numa palestra na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL), que não iria tolerar que as universidades e os institutos superiores usassem a língua indonésia para ensinar. Defendendo que os professores do ensino superior deveriam, em geral, usar as línguas nacionais em todas as atividades letivas, o ministro especificou “a necessidade de promover a língua portuguesa nas salas de aula”.
Assim, para a implementação do português, declarou o ministro que o MESCC se iria comprometer a “manter programas de capacitação na melhoria dos níveis de proficiência em português” e ambicionar “uma participação máxima dos docentes” para garantir que todas as atividades letivas fossem dinamizadas em português. No tocante ao uso do bahasa, declarou que o seu ministério iria “pedir uma clarificação aos reitores das instituições de ensino superior que utilizam a língua indonésia”.
Da parte de Instituições de Ensino Superior (IES) privadas, recorde-se que o Vice-Reitor da Universidade de Díli (UNDIL), Francisco Mausoro, já havia feito um apelo ao MESCC e à CPLP para fortalecerem a formação de língua portuguesa a professores das IES privadas. O dirigente opinou que a difusão de português nas aulas nas universidades privadas iria promover “aulas de qualidade” que contribuiriam para a “preparação de recursos humanos capazes de competir no mercado de trabalho quer a nível nacional, quer a nível internacional”.
Em julho passado, o Fundo de Desenvolvimento de Capital Humano (FDCH), pela voz do seu Diretor-Executivo, Cristóvão dos Reis, declarou que iriam ser enviados para Portugal 48 docentes, justamente de IES privadas, o que incluiria a frequência de um “curso intensivo de língua portuguesa”.
Tem sido unânime que o léxico do tétum não é suficiente para o uso de terminologia específica de várias ciências e tecnologias e, por inerência, para o ensino das mesmas. Recentemente, o assunto foi destacado na VIII edição das Jornadas Pedagógicas da UNTL, cujo título A Língua Portuguesa como Instrumento de Acesso ao Conhecimento não deixa margem para dúvidas. No evento, a Ministra da Educação apelidou a língua portuguesa como “um fio condutor de acesso a diferentes portas do conhecimento”.
As línguas usadas nas instituições de ensino superior timorenses
Por entre os detentores de curso superior na Tatoli, e num inquérito não estruturado, detetamos que as respostas indicam que o bahasa é o idioma dominante na Universidade da Paz (UNPAZ) embora também se use algum tétum e inglês, o português pouco ou nada é usado no Dili Institute of Technology, nesta dominando o inglês e na UNTL as línguas mais usadas repartem-se entre o português e o tétum.
Estruturado foi, todavia, o “estudo de caso” de M. Azancot de Menezes veiculado pelo jornal Tornado (Em que língua se ensina nas universidades de Timor-Leste? em 08/07). Realizado em novembro de 2022, conseguiu validar 50 respostas de estudantes de IES de Díli com a seguinte distribuição:
Os estudantes de IES foram inquiridos via, entre outras, as seguintes perguntas:
- Os professores ensinam em português?
- Os professores ensinam em tétum?
- Os professores ensinam em bahasa?
- Os professores ensinam em inglês?
- Os professores ensinam em tétum e bahasa?
- Os professores ensinam em tétum e português?
- Gostaria de ter aulas em português?
- Vai escrever (ou escreveu) a sua monografia em português?
- Vai escrever (ou escreveu) a sua monografia em bahasa?
As respostas às perguntas 1 a 6 obtiveram os seguintes dados:
– 1 docente ensina exclusivamente em português;
– 5 docentes ensinam exclusivamente em inglês;
– 6 docentes ensinam em tétum e em português;
– 7 docentes ensinam em tétum e bahasa;
– 31 ensinam em tétum, bahasa e português.
No tocante à pergunta 7, apurou-se que 48 estudantes desejavam ter aulas em língua portuguesa e, finalmente, no que toca às perguntas 8 e 9 as respostas foram:
– 22 estudantes responderam que vão escrever a monografia em português;
– 28 responderam que não vão escrever a monografia em português;
Embora se verifique, pelas respostas às perguntas 1 a 6, que 38 de 50 professores usam o português, ainda que 37 deles em regime multilingue, o autor do estudo, algo à margem dos dados obtidos, lamenta que “as aulas [nas IES] serem [sejam] ministradas em língua indonésia e/ou tétum, muito pouco ou quase nada em língua portuguesa”. Justifica a situação com razões que extravasam as IES: “a maior parte dos docentes das Instituições de Ensino Superior de Timor-Leste obtiveram os graus académicos de licenciatura, mestrado e doutoramento em universidades indonésias, por ser mais barato, devido às aulas serem ministradas em língua indonésia (a língua internacional que os docentes dominam)” e lamenta o que indica ser um “desconhecimento generalizado da língua portuguesa por parte dos docentes e reitores (mas também de deputados, dirigentes de partidos políticos, jornalistas, etc.)”.
Jornalista: Afonso do Rosário
Editora: Isaura Lemos de Deus




