Por:
Ludo Lunden
Um dia, há alguns milhares de anos, Maromak resolveu disfarçar-se de ser humano e visitar a terra. Já O tinha feito várias vezes, quer na forma de criança, quer na de adulto. Maromak tinha curiosidade pelas qualidades humanas. Decidiu viajar para um território que hoje se chama Timor-Leste. Assumiu a forma de um jovem e o nome de Maun-Romak.
Chegado a um local chamado Makadade, numa ilha, todas as pessoas O chamavam de “maun”, dado o Seu aspeto jovem, e cumprimentavam-No educadamente. Parou perto de uma ferik que, numa cabana perto da praia, tecia panos. Perto do tear, estavam já umas roupas tecidas. A senhora olhava para o pano cumprido recentemente tecido com um ar muito triste. As linhas do seu rosto, o rosto de alguém que já se viu muito bonita, sinalizavam o andar dos anos e queimaduras do sol. Os olhos, castanhos-escuros, como a pele, testemunhavam uma experiência de vida variada e o sorriso também.
Maun-Romak inquiriu-a: “O seu tecido está triste ou triste está você?”. A ferik, até então pensativa, apercebe-se da existência de outra pessoa. Pede-lhe desculpa:
– “Perdão! Não sabia que estava aí. Entre, sente-se!”.
A ferik serve uma bebida e oferece algum pão num prato de madeira vindos de um armário onde pouca mais comida havia. Maun-Romak pergunta-lhe:
– “Olá, chamo-me Maun-Romak. Parece triste… posso ajudar?”
– “Não, deixe lá…”, diz a ferik, “Sabe como nós, ferik, somos. Com os filhos encaminhados, já ninguém nos quer… e o meu marido faleceu há anos na pesca aqui perto… eu entretenho-me a tecer roupas…”
– “Sim”, responde Maun-Romak, “as roupas que faz são muito bonitas…”
-“Obrigado, é muito gentil…”, respondeu a ferik, “mas o meu problema é mesmo esse: já não gosto de tecer roupas. Fui juntando muitas. Mas agora é cada vez mais difícil arranjar o algodão por estas terras. E já ninguém quer as minhas roupas… dantes ainda as trocavam por leite, ovos, alguma carne ou vegetais, mas agora vão buscar roupas mais frescas a outros lados… agora não sei porque ainda as faço”.
Maun-Romak prestou atenção ao padrão do tecido. Em rigor, não existia. Era algo multicolor, mas sem um padrão, sem um desenho. Sugeriu:
– “Porque não imita a natureza no desenho e na cor dos seus tecidos”?
– “Como?”, perguntou a ferik.
– “Imite as cores da natureza! Amarelo tal como a banana, verde tal como o modo, castanho tal como a aifarina e, azul tal como o lalehan, vermelho tal como o uhak e muitos outros…”
– “Ui, tantos tais!” exclamou a ferik.
– Sim, chamemos-lhe isso! Tais!”, interrompeu Maun-Romak, “Só lhe peço uma coisa: use todas cores que puder, mas repita-as e siga o mesmo padrão, sempre o mesmo desenho. E use sempre o algodão local. Essa será a sua marca, a sua singularidade. Prometa-me isso e eu em troca prometo que muito algodão nascerá e crescerá nos campos perto da sua casa e em muitos outros campos”.
– “Muito bem, aceito… mas que roupas devo fazer?”, perguntou a ferik.
– “Nenhuma!”, afirma Maun-Romak. “Faça um retângulo comprido de tecido desfiado nos seus lados mais curtos”.
Perante a concordância da idosa, Maun-Romak prometeu voltar. Pouco tempo depois, caules de algodão nasciam em todo o lado. A ferik de Makadade, por sua vez, começou a tecer os seus tais. Os tais da ferik eram tão bonitos que muitas pessoas gostaram e começaram a fazer outros tais. Mas cada região fez os seus desenhos: caras de pessoas, palavras, casas e muitas outras coisas, mas não elementos da natureza. Muitos tais não eram feitos de algodão local, mas de outros tecidos importados de outras regiões.
Maromak descobriu e ficou muito zangado. Voltou ao planeta terra, a Makadade, e foi encontrar-se com a ferik. Disse-lhe:
– “A senhora não cumpriu a sua palavra! A senhora não é de confiança!”
A ferik chorou e respondeu:
– “Perdoai-me senhor! Eu sei que Você É Maromak disfarçado. Eu tentei cumprir a promessa, mas toda a gente gostou dos meus tais e cada um fez à sua maneira”.
Maromak, furioso, respondeu:
– “Eu vou queimar todos os tais que não tenham desenhos de coisas da natureza e não sejam feitos de algodão local! E, de castigo, daqui em diante, terão muita udan boot durante seis meses e nenhuma udan boot durante os outros seis meses!”.
De repente apareceu um anjo, o Anjo Gabriel. Ele pediu a Maromak que tivesse compaixão pela ferik. Disse que a senhora não tinha culpa e que não se podia censurar a criatividade das pessoas. Maromak teve pena e decidiu não queimar todos os tais. Mas manteve o castigo da udan boot. Ainda hoje o território de Timor-Leste tem muita udan boot durante seis meses e quase nenhuma nos outros seis meses do ano.
Desde então, o território de Timor-Leste tem uma grande variedade de tais, muitos feitos de algodão local com padrões simples, mas cores muito bonitas. E, dizem algumas pessoas, Maromak abençoou o tecido tradicional de Timor-Leste e continua a prestar muita atenção aos tais. (*)




