iklan

HEADLINE, NACIONAL, NOTÍCIAS DE HOJE

Ramos Horta: Max Stahl tinha uma forte personalidade e fará sempre parte da história da nossa luta

Ramos Horta: Max Stahl tinha uma forte personalidade e fará sempre parte da história da nossa luta

Max Stahl. Imagem/PR.

DÍLI, 28 de outubro de 2021 (TATOLI) – O ex-Presidente da República, José Ramos-Horta, considerou que Max Stahl é uma “grande personalidade” para todos os timorenses e o mundo.

“Max Stahl deixou-nos. A morte dele é uma perda para todos os timorenses e o mundo. Uma grande alma, um grande coração, uma grande personalidade que faz parte da história da nossa luta”, informou hoje à Tatoli, no Farol, em Díli.

Ramos Horta realçou que a causa da morte de Christopher Wenner, conhecido por Max Stahl, foi cancro.

“Pessoalmente, queria deslocar-me até à Austrália, mas não foi possível devido às restrições impostas pelas autoridades federais australianas por causa da covid-19″, revelou.

Max Stahl morreu esta quinta-feira num hospital em Brisbane, Austrália, praticamente 30 anos depois de recolher as imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli, em novembro de 1991, que mudariam para sempre o percurso da luta pela independência do país.

Pela sua contribuição na luta da independência, o Estado timorense condecorou o jornalista britânico e timorense Max Stahl, com o Colar da Ordem da Liberdade, atribuído apenas a indivíduos de nacionalidade timorense.

Já em novembro de 2019, o Chefe de Estado, Francisco Guterres Lú Olo, condecorou Max Stahl com o Grande Colar da Ordem de Timor-Leste.

Esta condecoração teve por objetivo reconhecer o seu contributo para a luta do país pela autodeterminação, mostrando a situação de Timor-Leste ao mundo.

Max Stahl foi um jornalista e realizador de filmes documentais. Nasceu na Inglaterra, no dia 6 de dezembro de 1954.

Era descendente de uma família de diplomatas. O avó materno era um diplomata sueco, que teve o privilégio de ser o Diretor da Academia Sueca para o Prémio Nobel durante mais de vinte anos. Filho de Christopher Max Stahl Wenner, diplomata suíço e de mãe francesa, cresceu com três irmãos. Por virem de uma família de diplomatas, Stahl e os seus irmãos sempre tiveram contacto com os problemas internacionais, pois mudavam de  país frequentemente – Bolívia, El Salvador, Áustria e Inglaterra.

Max estudou Literatura na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Falava fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, português e tétum. Sabia também russo e um pouco de árabe.

Max começou a sua carreira como produtor de teatro e de programas de televisão dedicados a crianças, na Inglaterra.

A sua vocação de repórter de guerra surgiu quando vivia com a sua família em El Salvador, onde o pai exerceu as funções de embaixador. Começou por elaborar reportagens sobre a guerra civil de 1979 a 1992.  Foi depois para a Chechénia, Geórgia, Jugoslávia e Timor-Leste.

Sofreu inúmeras experiências amargas durante as suas funções – foi preso, assistiu à morte de colegas, experienciou a miséria junto de guerrilheiros no mato e foi testemunha de genocídios, como o Massacre do Cemitério de Santa Cruz, em 1991. Foram-lhe atribuídos vários prémios, nomeadamente o Rory Peck Award, concedido a operadores de câmara que colocam a vida em risco em reportagem.

Em resposta ao convite de quadros da resistência timorense, Max Stahl chegou pela primeira vez a Timor-Leste, no dia 30 de agosto de 1991, como turista. Ao longo da sua estadia, entrevistou vários líderes da Frente Clandestina e guerrilheiros, nomeadamente o Comandante David Alex “Daitula”, Nino Konis Santana, entre outros.

O documentário de Max Stahl intitulado “In Cold Blood: The Massacre of East Timor” divulgou o Massacre de Santa Cruz. Max assistiu diretamente à brutalidade dos militares indonésios que tiraram a vida de jovens timorenses. As imagens espalharam-se por todo o mundo, abrindo os olhos a diversos países para a luta pela independência de Timor-Leste. A filmagem de Santa Cruz foi levada para o estrangeiro graças a uma ativista holandesa, Saskia Kouwenberg.

O referendo de 1999 levou Max Stahl a regressar novamente a Timor-Leste, onde registou os sacrifícios e resiliência dos timorenses para ultrapassarem inúmeros desafios e criarem a República Democrática de Timor-Leste, que se tornou oficial a 20 de maio de 2002.

Na preservação da história da luta dos timorenses, Max Stahl criou, gerindo de forma independente, o Centro Audiovisual Max Stahl em Timor-Leste (CAMSTL), onde compilou registos de vários acontecimentos históricos recolhidos ao longo dos últimos 25 anos. Todos estes arquivos foram considerados “Registo da Memória do Mundo” pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciências e Cultura (UNESCO, sigla em inglês).

Para fins educativos e de investigação, o CAMSTL tem cooperado com a Universidade de Coimbra, em Portugal, de modo a arquivar os documentos históricos de Timor em formato digital.

Jornalista: Afonso do Rosário

Editora: Maria Auxiliadora

iklan
iklan

Leave a Reply

iklan
error: Content is protected !!